Duas Semanas

 

 

 

 Setembro, Outubro e Novembro realçavam as lembranças. Era uma apreensão só! Nada de esquecer alguma coisa. Tudo era repassado e a lista conferida. Ações para encontrar um local adequado, locação e, sobretudo, a esperança de que desta vez próxima – como se fosse possível – tudo seria ainda melhor. Era o assunto de todos os dias. Dúvidas cruéis, do que valeria a pena repetir, levar ou não levar... O tempo ia passando na esperança de Fevereiro chegar bem rápido. 

Dezembro e Janeiro nada mais eram do que meses que vinham antes do Fevereiro! Logo chegaria o tempo das duas semanas agraciadas, esperadas, sonhadas, queridas, acalantadas, prometidas e muito desejadas. Faltava, às vezes, o ar para respirar. Chega logo, chega.

Chegou! Duas semanas para ver o mar, sentir a brisa, descobrir os pés nas areias, apreciar o movimento, sorvetar, saborear um café com doce, desmarcar as dietas e diminuir os remédios... Santo remédio! A benção chegara novamente e mal dava para esperar a final da sexta feira. Se fosse possível antes ainda do sábado já se iria caminho afora, com destino certo e sem desvios. Chegar rápido, para aproveitar o máximo.

Alguns anos depois abria a janela do quarto, no sétimo andar e soprava no rosto a brisa forte. Era a mesma de sempre, com cheiro de sal e iodo. A vista estava magnifica, como sempre. A areia era limpa e as ondas quebram ao largo da praia, enquanto os barcos de pesca do camarão singravam as baias próximas. Eram cerca de 30 e começam logo às quatro da manhã, ainda escuro. Debruçado no peitoril via-se tudo. A cena repetia-se agora nas 52 semanas de todos os anos!

Quando correu a notícia de que ia vender a vista junto com o apartamento, não faltou severo e hostil questionamento! Perdera um pouco mais do juízo já pouco? Foi afetado na cabeça e já não fazia sinapse? Era caso de interdição? Não concluía-se nada...

Não perceberam que a mágica houvera quebrada! Não havia mais a espera, a ânsia de chegar, a tristeza de voltar, a chegada da benção e nem dietas para desmarcar. As duas semanas não mais eram destaques entre as 52... A rotina diária era, mesmo que bela, sempre a mesma. Pior, do umbral da janela via-se tudo. Nem precisava mais procurar. A vista era magnífica, todos os dias, mas incrivelmente mais pobre, mais desinteressante, menos reconfortante.

Os dias sequenciais não eram mais desejados, queridos, ansiados, esperados em comoção, curtidos na plenitude e o regresso simplesmente não mais era necessário. Derreteu-se no calor do comodismo ver o mar, sentir a brisa, descobrir os pés nas areias, apreciar o movimento, sorvetar, saborear um café com doce, desmarcar as dietas e diminuir os remédios. As duas semanas agora, eram 52 – e todas iguais.

Ficou mesmo à venda, e o sal do mar tornaria palatável novos desafios, novas esperas, novas ansiedades e tornariam o sangue mais pulsante enquanto o tempo da velhice passava. Deve ser por isto que se diz que tudo vale a pena quando a alma não é pequena... Vendeu-se logo!